Desmentimos em cinco pontos os argumentos para a privatização da Petrobras

Não é de hoje que o Governo Federal vem buscando, gradualmente, a privatização da Petrobras. Por meio de um texto elaborado por sua diretoria, em maio de 2020, a companhia sintetizou sua estratégia atual e futura.

Escorando-se no velho discurso dos cortes de gastos para atrair investimentos, o artigo camufla a estratégia privatizante da gestão Bolsonaro com um discurso supostamente técnico.

Intitulado “Cinco pontos para entender nossa estratégia”, o texto da Petrobras, para quem o setor petrolífero vive hoje sua pior crise em cem anos, sustenta a aceleração da privatização da empresa através de cinco argumentos. Vejamos o que está por trás deles.

 

1 – Privatizar refinarias e distribuidoras deixa a Petrobras desprotegida

O que o governo quer: no primeiro item de seu texto, a Petrobras se define como uma empresa “em crescimento”, com foco principal na exploração e produção em águas profundas e ultra profundas. Sendo esse o foco principal, que se daria principalmente no chamado Pré-Sal, não compensaria investir ou manter outros setores, que poderiam ser privatizados, o que “sustentaria” novos investimentos.

A verdade: as principais petrolíferas internacionais são integradas, tendo a exploração e a produção caminhando junto com refino, transporte, comercialização, distribuição, petroquímica e o desenvolvimento de novas matrizes energéticas, setores que a Petrobras não tem se esforçado para manter.

Essa integração é exatamente o que garante a geração de caixa em contextos de inevitável variação no preço dos combustíveis. Quanto menor a integração, mais a empresa se expõe às variações do mercado. Além disso, o governo vem reduzindo drasticamente os recursos para novos investimentos na Petrobras (uma das razões para a queda da atividade econômica brasileira) e, portanto, os recursos obtidos com a privatização de subsidiárias, não estão sendo investidos nessa área.

 

2 – É possível reduzir a dívida sem privatizar

O que o governo quer: no segundo item, a Petrobras argumenta que sua dívida é maior do que a de outras empresas do setor, e que é preciso diminuí-la para melhor as condições de crédito. A redução da dívida é um dos principais argumentos para a privatização de empresas públicas, e nesse caso não é diferente.

A verdade: privatizar não é sinônimo de redução de dívidas, processo que pode ser alcançado por outros meios, como o aumento de produtividade (mas o governo vai na contramão e reduz as atividades na refinaria, aumentando a necessidade de importação de combustíveis).

A própria Petrobras reduziu sua dívida líquida de US$ 115,4 para US$ 69,4 bilhões entre 2014 e de 2018, e nesse período apenas cerca de 25% dessa redução se deveu através da venda de ativos.

 

3 – Investir só em exploração e produção aumenta os riscos

O que o governo quer: no terceiro ponto, a direção da Petrobras volta a afirmar que o “desinvestimento” (um nome que inventaram para a privatização) é necessário para reduzir dívidas e garantir investimentos em áreas com maior valor, e anuncia que, entre 2020 e 2024, 85% dos investimentos feitos pela empresa serão em exploração e produção.

A verdade: como já apontado, a maior rentabilidade do setor de exploração e produção depende dos preços internacionais do petróleo, que podem variar, assim como a cotação do dólar. Isso amplia os riscos para a empresa porque ela fica dependente de um só ramo de atuação e de fatores externos. As demais petrolíferas, especialmente as estatais de outros países, investem na diversificação porque pensam em construir um futuro mais próspero para o país.

 

4 – Cortar custos não aumenta necessariamente a receita

O que o governo quer: seguindo o comando do governo brasileiro, a direção da empresa defende programas de demissões voluntárias e o corte de despesas como publicidade e patrocínios. A meta de 2020 seria de redução de 10% dos gastos totais, sendo que a estatal é a principal incentivadora do esporte nacional, da cultura, do cinema e produções audiovisuais e de projetos de educação.

A verdade: o documento da Petrobras não explica, porém, qual o impacto que iniciativas como demissões em massa têm na saúde financeira geral da empresa, uma vez que apenas os custos com matéria-prima consomem cerca de 80% dos recursos. Qual a relação desses custos com a receita?

O que se pode observar é que mudanças como privatizações e demissões podem gerar pequenas reduções de custos, mas que impactam também na geração de receita e no lucro, o que não é o melhor caminho para a empresa crescer. Com a venda de ativos ou subsidiárias, há entrada imediata de dinheiro, mas isso logo se transforma em prejuízo no médio e no longo prazo, já que a receita e os lucros diminuem.

 

5 – Os objetivos da Petrobras não são os mesmos de uma empresa privada

O que o governo quer: por fim, a direção da Petrobras conclui seu documento dizendo que já superou diversas crises e o fará novamente, mantendo uma estratégia de longo prazo. Cabe questionar, no entanto, qual seria essa estratégia, uma vez que parece haver uma grande, e talvez propositada, confusão entre o qual seu papel enquanto estatal (que não é só dar lucro para acionistas ou priorizar o sistema financeiro – de onde veio o ministro da Economia, Paulo Guedes).

A verdade: A Petrobras tem funções e responsabilidades socioeconômicas que as multinacionais privadas não têm. Ela pode garantir a autossuficiência energética do país, prover renda direta e indireta para o Estado, garantir vantagens geopolíticas importantes e ainda estimular o desenvolvimento da pesquisa e da ciência nacional. Tudo o que o governo de Jair Bolsonaro não parece valorizar.

Fonte: Petrobras Fica MG

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